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Escala 5x2: onde automação corta custo sem destruir serviço

A mudança trabalhista encarece a folha do varejo e antecipa decisões de CAPEX. O ponto não é trocar caixa por máquina, é decidir onde faz sentido.

Gestão · Estratégia · Negócios · GovernançaAllan Rodrigues

A aprovação da PEC que muda a escala de 6x1 para 5x2 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, chegou ao varejo como um choque de custo imediato. Segundo o presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Erlon Ortega, as novas regras encarecem entre 15% e 20% a folha de pagamento do setor. Para um segmento que opera com margens estreitas e depende de mão de obra intensiva, esse número não é abstrato.

A reação mais rápida e visível está na demanda por self-checkout. A Laurenti Elgin, fabricante que detém 85% do mercado de equipamentos de automação para supermercados, atacados e atacarejos, dobrou a produção: saiu de cerca de 800 unidades por mês para 1,6 mil, segundo reportagem do Estadão Economia. O prazo de entrega também dobrou, de 30 para 60 dias, e a empresa mudou de fábrica, saltando de 2 mil para 8 mil metros quadrados. O mercado está votando com pedido em carteira.

Mas a decisão de automatizar não é binária. O erro mais caro que um executivo de varejo pode cometer agora é tratar automação como resposta padrão para qualquer loja, em qualquer formato, com qualquer perfil de cliente.

A conta que parece óbvia, e o que ela esconde

Os números do fabricante são concretos. Substituir quatro caixas tradicionais por quatro self-checkouts alugados, mantendo um fiscal para cada quatro equipamentos em dois turnos, reduz a despesa mensal de R$ 32 mil para R$ 11,4 mil. Uma queda de 64,3%, ou R$ 20,6 mil a menos por mês, conforme os cálculos apresentados pelo diretor comercial Luis Fernando Laurenti ao Estadão. Na compra, o payback seria de quatro meses.

Essa conta fecha bem em um supermercado de médio porte com fluxo previsível e perfil de cliente habituado ao autoatendimento. Ela não fecha da mesma forma em todos os contextos.

"Por mais que automatize, não vai reduzir a necessidade do time em campo." Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt

O presidente da Apas vai além: na seção de frios com autoatendimento, ainda é preciso ter alguém fatiando e embalando. A tecnologia muda a posição do funcionário, não necessariamente elimina a vaga. Essa distinção importa muito na hora de montar o business case.

Loja a loja: a decisão que não pode ser centralizada

A armadilha comum é tomar a decisão de automação no nível corporativo e replicar para toda a rede. O varejo brasileiro é heterogêneo demais para isso funcionar.

Algumas variáveis que mudam o cálculo por unidade:

  • Formato e ticket médio. Supermercados e segmento alimentar têm maior aplicabilidade de totens e self-checkout, segundo Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt. Lojas de moda também. Formatos que dependem de consultoria de venda têm retorno menor.
  • Localização. Lojas em shoppings operam com horários regidos por contrato. Para as lojas satélite, com dois ou três funcionários, o aumento de custo pode chegar a 25%, segundo Francisco Ritondaro, diretor da Gouvea Malls. Automação resolve pouco quando o quadro já é mínimo.
  • Perfil do cliente. Self-checkout funciona onde o cliente aceita operar o equipamento. Onde o serviço é o diferencial, a automação pode corroer receita ao mesmo tempo que corta custo.
  • Taxa de juros. José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP, lembra que equipamentos exigem CAPEX e o custo do dinheiro hoje está em nível elevado. O payback de quatro meses do exemplo acima muda se o capital for captado a custo alto.

O risco do atalho mais barato

Parece, o caminho de menor resistência é repassar o custo para o preço. Pastore aponta que essa tende a ser a saída mais usada, porque não exige investimento nem mudança operacional. A empresa simplesmente aumenta preços.

O problema é que esse atalho tem prazo de validade. Em um ambiente competitivo, o varejista que automatizar com critério vai operar com estrutura de custo menor. Quem repassar tudo para o preço vai perder volume para quem não repassou.

A decisão de não investir em automação agora também é uma decisão de CAPEX. Ela tem consequência futura.

O que o executivo precisa decidir antes de assinar o pedido

Antes de colocar self-checkout em carteira ou avaliar robôs para abastecimento, como a rede Hirota já estuda, três perguntas precisam ter resposta por loja:

  1. Qual é o custo real da operação atual nessa unidade, incluindo turnover e déficit de contratação?
  2. Onde a automação substitui tarefa repetível sem degradar a experiência do cliente?
  3. Qual é o custo de capital para esse investimento nesse momento, e o payback ainda fecha?

A resposta a essas perguntas não vem de um benchmark de rede. Vem de dado granular por loja. Quem não tem esse dado estruturado vai tomar a decisão no feeling, e o feeling nesse cenário custa caro.

A mudança trabalhista antecipou uma decisão que muitas redes iam adiar. O ponto não é se automação vai acontecer. É quem vai decidir com critério e quem vai decidir com pressa.

Fonte: Estadão Economia

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