Simular um ataque de hacker levava semanas. Hoje, a Vultus faz isso em seis horas. Essa diferença não é só operacional. Ela é a tese de negócio inteira.
A empresa brasileira de cibersegurança captou R$ 8 milhões para escalar uma transição que já está em curso: sair de um modelo baseado em horas de consultoria e caminhar para receita recorrente de software. O produto central dessa virada é o Ares, plataforma que usa IA para simular invasões nos sistemas dos próprios clientes, encontrar brechas e entregar um relatório técnico e executivo ao final do ciclo. Segundo Alexandre Brum, CEO da Vultus, um ciclo que levaria cerca de 30 dias em um pentest convencional pode ser concluído pelo Ares em seis horas, dependendo da complexidade do ambiente.
O que o caso da Vultus ensina não é sobre cibersegurança. É sobre onde a IA realmente rentabiliza dentro de um negócio de serviço.
O gargalo que a IA resolveu
Em uma consultoria técnica, o crescimento tem um teto natural: você só entrega mais se contratar mais. Cada novo contrato exige um especialista. A conta não fecha quando você quer escalar sem inflar custo.
A Vultus identificou que o gargalo não era o conhecimento do especialista. Era o tempo que ele levava para executar tarefas repetíveis: varrer ambientes, testar vetores de ataque conhecidos, documentar achados. Esse é o trabalho que o Ares assumiu.
O resultado aparece na fala de Brum com precisão: "Se antes, para cada projeto que entrava, eu precisava de uma pessoa, hoje, para cada dez projetos, talvez eu precise de uma."
Isso não é retórica de pitch. É a lógica da margem: mais projetos, mesma estrutura, custo adicional concentrado em consumo de modelos de IA e tokens, não em headcount.
O que a IA não substitui
A plataforma não opera sem supervisão humana. Quando o sistema identifica uma ação considerada crítica durante a simulação, um alerta é enviado para que um analista avalie se o teste pode avançar. A IA executa. O especialista decide o que fazer com o que ela encontra.
Isso não é limitação técnica. É design intencional, e é o que transforma o produto em algo que um executivo consegue assinar.
"Não existe uma decisão certa ou errada. Existe um risco que você quer assumir ou não. O executivo precisa ter o insumo necessário para tomar essa decisão.", Alexandre Brum, CEO da Vultus
O relatório final do Ares não entrega só dados técnicos. Ele traduz a vulnerabilidade para o negócio: qual é o custo de manter aquela brecha aberta, se faz sentido corrigi-la agora, qual risco a empresa está assumindo ao adiar. Esse enquadramento é o que vira conversa de board. E conversa de board é o que vira contrato.
A IA encontra a brecha. O julgamento humano decide o que ela significa para o negócio.
Por que o modelo de consultoria puro não sobrevive
A Vultus chegou a essa conclusão por um caminho que muitas empresas de serviço ainda estão evitando encarar: o adversário também está usando IA.
Ferramentas que automatizam a busca por vulnerabilidades já estão nas mãos de criminosos. Um atacante com IA consegue varrer mais sistemas, testar mais vetores e avançar mais rápido do que um time humano consegue responder. Se a defesa continua operando no ritmo de 30 dias por ciclo, ela já perdeu antes de começar.
Brum resume com clareza: "Eu preciso ganhar escala na minha operação porque o atacante está ganhando escala também."
Essa é a pressão competitiva que força a mudança de modelo. Não é tendência de mercado. É sobrevivência operacional.
O que o aporte de R$ 8 milhões financia
Os recursos vão para desenvolvimento de tecnologia proprietária e expansão do portfólio de software. A consultoria não desaparece. Ela continua sendo a porta de entrada para novos clientes e a fonte do conhecimento técnico que alimenta o desenvolvimento das ferramentas.
A diferença é que a Vultus quer parar de depender da quantidade de especialistas disponíveis para determinar quanto consegue crescer. O conhecimento acumulado pelos times técnicos vira produto. O produto escala sem contratar na mesma proporção.
A meta declarada é dobrar a receita em três anos. A Vultus nasceu com faturamento aproximado de R$ 35 milhões quando a marca foi anunciada, em setembro de 2024.
A lição para qualquer empresa de serviço
O caso da Vultus não é exclusivo de cibersegurança. É um modelo aplicável a qualquer negócio onde o crescimento está travado pelo tempo do especialista.
A pergunta que vale fazer internamente:
- Quais etapas do nosso serviço são repetíveis e consomem horas de quem mais custa?
- O que a IA consegue executar com supervisão, sem substituir o julgamento final?
- Onde está o gargalo real: o conhecimento ou a execução?
Automatizar o gargalo errado não gera escala. Gera custo novo sem receita nova. A Vultus automatizou a execução técnica e preservou o julgamento sobre o que o achado significa para o negócio. Foi essa escolha que virou produto recorrente, não a tecnologia em si.
Para a empresa que ainda opera 100% em modelo de horas, a consequência prática é direta: cada contrato novo exige um especialista novo, a margem não melhora com o volume e o crescimento tem teto. Identificar onde a IA pode assumir a execução repetível, sem abrir mão de quem interpreta o resultado, é o movimento que separa escala real de crescimento linear.